Turquia: O “Golpe das 5 Horas”!

Para uma melhor contextualização, recorro a uma entrevista que fiz a 15 de Outubro do ano passado, à Professora Dejanirah Couto, da Sorbonne e especialista na Turquia e Médio Oriente. Nesta data estávamos a cerca de duas semanas da realização das segundas eleições legislativas. Digo segundas, porque as primeiras, em Junho, não tinham dado ao partido do já Presidente Erdogan, a maioria absoluta desejada para se proceder à alteração constitucional, que permitiria ao Presidente, poderes absolutos e, Erdogan qual Sultão Iluminado, mandou repetir as eleições, na busca da democracia plena!

A pergunta inicial pareceu-me óbvia, “como é que se chegou até aqui? Fim do Império, laicização, regime militar, islamização e agora “erdoganização” do Poder na Turquia!

A resposta:

“A islamização (que vem a dar no erdoganismo) está lá desde a República, desde 1923. A laicização de Kemal Attaturk teve que combater uma sociedade extremamente hierarquizada, conservadora, com valores do Império Otomano, onde o Islão tinha (e continua a ter) uma influência preponderante. Ora isto criou uma reacção de resistência natural. Este período foi brutal porque equivaleu à criação de uma nova identidade. Por exemplo, era obrigatório mudar os nomes de família que continham ressonâncias do Império, em nomes que refletissem o homem novo turco que se queria criar. A “turquização” da própria língua, é um trauma que atravessou várias gerações e isto criou resistências que foram naturalmente sendo maiores nas zonas rurais e oriental do país. Os sucessivos golpes militares desde 1960, vieram reforçar ainda mais este clima de cripto-islamismo, que aliás foi terreno fértil para o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) ir cimentando a base do seu eleitorado que lhe dá a maioria absoluta nas Legislativas de 2002.”

Parece-me um excelente ponto de partida para analisarmos os acontecimentos das últimas horas

O Golpe das 5 Horas

Erdogan acusou de imediato e sem surpresa, que quem está por detrás do golpe é Fethullah Gullen, um clérigo islâmico com quem já foi unha com carne e que o ajudou a subir ao Poder. Acontece que Gullen, um Dhai de formação, um Divulgador do Islão com Carteira Profissional desde 1959, foi criando ao longo dos anos uma versão gullenizada do “Islão Turco”, aberto ao diálogo com o Vaticano e com organizações judaicas, ao qual lhe acrescentou uma postura pró-negócios, o que já levou alguns especialistas a afirmarem que a sua teologia equivale a um “Calvinismo Islâmico”. Precisamente essa faceta empreendedora fez do Movimento Gullen aquilo que ele é hoje, um estado dentro do Estado. Os seus interesses e investimentos vão desde a comunicação social (várias cadeias televisivas, jornais, revistas e uma rádio) até ao ensino, controlando uma rede de centenas de escolas de ensino islâmico turco ao nível mundial. Uma primeira lança a colocar no(s) país(es) onde a Turquia definiu interesses. Só depois vão os bancos e depois as empresas. Uma espécie de cavalo de Troia, com uma linha ideológica e espiritual muito própria. Uma espécie de culto, uma Confraria Islâmica com regras e comportamentos de sociedade secreta e que começou a ser tentacular e a recrutar muita gente nas Forças Militares, Serviços de Informações, Polícias, Tribunais, etc. Erdogan passou a vê-lo como uma ameaça, embora Gullen nunca o tenha afrontado. Antes que o fizesse, foi Erdogan que o atacou com o fisco e o atou a mil processos em tribunal, o que o levou ao exílio nos EUA para não ser preso. É claro que este homem, cujo seu grupo está classificado como terrorista pelo regime turco, em princípio, deverá querer vingar-se de Erdogan, mas começa a ganhar alguma credibilidade a teoria de um auto-golpe. Ou seja, Erdogan e o Regime, orquestraram tudo para que o resultado final fosse o reforço dos poderes presidenciais e de caminho limpar as fileiras e a influência gullenista, sobretudo ao nível dos tribunais.

Erdogan, apesar de o seu partido ter conseguido a maioria necessária para o cumprimento de uma obsessão do Presidente. Alterar a constituição para que possa ter todos os poderes concentrados em si, qual Sultão Iluminado. Para isso mesmo, mandou repetir eleições legislativas em Novembro, porque as de Junho não lhe tinham dado o resultado que queria, como já referi. Foi esta democracia que os turcos foram defender para as ruas. Outro aspecto em cuja “bota não bate com a perdigota” segundo certos cidadãos turcos, foi a acção dos revoltosos. “Bombardear o Parlamento! Mas quem é o honrado turco que vais fazer isso? Um militar turco jamais bombardearia as suas instituições, o seu povo!”. As embaixadas americana, francesa e britânica há 3 dias que estavam fechadas, sem justificação aparente. Na verdade, o caldo entornou-se e o saldo é pesado. 90 mortos (47 civis) e mais de mil feridos do lado do Governo; mais de 100 golpistas mortos e mais de 1600 detidos. 5 misseis foram disparados de um F-16 contra o Parlamento. Um cenário que poderia bem ser pior, caso Erdogan não tivesse aparecido a comunicar ao país via Facetime. Já agora, os militares revoltosos não tinham desactivado as redes sociais todas e bloqueado comunicações?! E este é o momento chave desta tentativa de golpe, genuína ou controlada, e que permitiu a quebra de 2 recordes, o de golpe mais rápido da História da Turquia, o Golpe das 5 horas e o primeiro exemplo de um PR/Regime a ter as novas tecnologias a seu favor e a fazer abortar um golpe, graças ao Facetime! As escolas de Comunicação e Jornalismo, certamente que vão passar a esmiuçar este episódio, como no século passado esmiuçaram a gota de suor a escorrer pela fonte do Nixon no debate com o maquilhado Kennedy.

Em conclusão, Erdogan aparece uma vez mais como Salvador, como Defensor da Democracia, algo bem melhor que fama de aliado do daesh, ou instigador da guerra com os curdos. Erdogan tem sido aliás pródigo em maximizar momentos que lhe dão esta dimensão providencial, havendo agora condições para levar a votação sobre a alteração constitucional avante. Já o poderia ter feito, mas temeu por algum alarme social interno e pressões internacionais e aguardava, certamente, o momento certo para jogar esta cartada. É agora e a par de umas purgas junto dos militares, serviços secretos, polícias e tribunais.

Quanto aos revoltosos, sem especulação, serão certamente laicos e Kemalistas ou attaturquistas (de Kemal Attaturk), que é como se chamam os ultra-nacionalistas na Turquia. Uma clique minoritária, como tem sido caracterizada, mas que certamente reflete a fractura social turca entre laicos e islamistas e se opõe ao que inevitavelmente irá acontecer, o reforço dos poderes presidenciais.

Uma última palavra para os democratas que responderam à chamada do Presidente e vieram em socorro da democracia. Tiveram na maioria dos casos o comportamento das nossas mães ao tirarem em alguns casos, pelas orelhas, os militares revoltosos dos tanques, o que não deixa de ser anedótico para acontecimento desta dimensão e gravidade. No entanto, houve 2 acontecimentos que nos devem fazer reflectir. Um foi terem degolado um militar na ponte sobre o Bósforo, em Istambul, lançando depois o corpo à água. O outro foi  chicotearem um grupo de militares revoltosos em plena via pública (não consegui perceber em que cidade), qual Tribunal Popular Islâmico.

Tenho lido muitas opiniões sobre tudo isto no geral e há quem diga que a Turquia é na Europa e que o PR e o Governo foram democraticamente eleitos. Pode ser, mas se a Turquia fica na Europa, estes 2 episódios em plena Pólis, dizem-nos que está ao lado, na franja da franja e muito mal acompanhada à volta!

 

Raúl M. Braga Pires (escreve de acordo com a ortografia antiga)

Investigador CINAMIL, Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar

 

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