Guiné-Bissau: Mon na lama versus Terra Ranka

Parece-me poder haver uma abordagem mais profunda relativamente à crise institucional em curso na República da Guiné-Bissau (RGB), que extravasa em muito as simples análises que se concentram sobretudo nas rivalidades pessoais entre o Presidente José Mário Vaz (JOMAV) e o ex-Primeiro-Ministro e líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira (DSP), bem como os perfis psicológicos de ambos.

Nesse sentido, é necessário recuar no tempo e precisar que o agora PR JOMAV, durante o Governo de Carlos Gomes Jr, 2011, foi o seu Ministro das Finanças e desde essa altura iniciou a concepção do Projecto de desenvolvimento agrícola, cujo nome se designa por Mon na lama, significando literalmente “mão-na-lama”, da mesma forma que em português de Portugal se utiliza a expressão “mão-na-massa”.

A base central deste projecto, assenta na cultura de arroz, cuja mão-de-obra será essencialmente juvenil, forma de combater a altíssima taxa de desemprego que assola o país, nomeadamente na faixa etária entre os 15 e os 35 anos, cuja percentagem deverá rondar os 30%, na falta de números fiáveis. Ou seja, esta foi a forma concebida pelo PR para conseguir uma auto-suficiência alimentar para o país, bem como estimular o emprego jovem.

A contrário sensu, DSP tem uma visão mais industrial e tecnológica relativamente ao desenvolvimento do país e concebeu mais recentemente o Projecto Terra Ranka, Terra Arranca, em português, baseado na industrialização do país e na exploração de recursos naturais, como a bauxite, as areias pesadas, petróleo e gás natural.

Tratam-se de concepções que à primeira vista poderão parecer nos antípodas uma da outra, mas que podem certamente ser complementares, desde que para tal haja vontade.

O problema fundamental do Mon na lama, é a estrutura pré-feudal da agricultura bissau-guineense. Ou seja, quem trabalha as bolanhas (arrozais), fá-lo à mão, sem ter a ajuda se quer de um boi, vaca ou jumento para puxar o arado. Este facto sinaliza de imediato que a aposta no desenvolvimento agrícola, por fundamental que seja, verá resultados práticos de forma lenta. É aqui que o Terra Ranka poderá fazer a diferença e incluir no seu processo de industrialização, também a actualização e mecanização da agricultura local.

O Mon na lama já está a ser implementado como experiência em Calequice, zona norte, de étnia Manjaco, a do PR JOMAV. Naturalmente que as críticas gratuitas começaram de imediato. “Deveriam era ter começado por Bafatá!” Talvez, mas JOMAV começou por onde, para ele, era mais fácil, conhecia melhor as pessoas, as bolanhas abandonadas, tem mais influência, é mais escutado e respeitado, etc.

Para a concretização do Terra Ranka, é fundamental que haja uma estabilização institucional do país e que a “Mesa Redonda” (União Europeia), canalize finalmente para Bissau os seus milhões. No total serão uns 1,3 mil milhões de euros. Para se situar, mil milhões foi quanto custaram os nossos 2 submarinos! Este é outro aspecto que separa JOMAV de DSP. O segundo, dá uma crescente importância à Mesa Redonda, já que esta será a solução para a implementação do seu projecto, enquanto que o PR JOMAV acha que se estará a hipotecar o país com mais dívidas e dependente de vontades exteriores, já que, como se sabe, nem tudo se paga em dinheiro. Isso é “fácil”!

Em conclusão e, sem querer entrar na questão dos egos dos protagonistas, parece-me que ambos os projectos são compatíveis e, sobretudo, complementares. DSP quer iniciar a industrialização do país com a extração de recursos naturais. Pois que reflita sobre a possibilidade de iniciar essa industrialização através da agricultura e renovação do respectivo parque de máquinas, aliás inexistente.

Os bissau-guineenses comem arroz e não areia!

 

Raúl M. Braga Pires, escreve de acordo com a ortografia antiga.

Um pensamento sobre “Guiné-Bissau: Mon na lama versus Terra Ranka

  1. Finalmente percebi a diferença entre estes 2 projectos para a Guiné-Bissau. Não são incompatíveis – podiam avançar paralelamente e assim dar trabalho a milhares de jovens que passeiam sem futuro pela Guiné. Por isso a minha sempre incompreensão de não se juntar as mãos para a Guiné-Bissau – entretanto parada e a ver passar a banda de “quem puxa aqui, quem puxa acolá” – e o povo andando na luta diária da sobrevivência…. ASSIM NÃO!!!!!

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